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sexta-feira, 12 de março de 2010

COTAS “RACIAIS”: POLÍTICA DE URGÊNCIA.

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Pintura "Operários" de TARSILA DO AMARAL – 1933.
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A partir do texto “Cota racial é política, cota social é esmola” do Filósofo PAULO GHIRALDELLI JR, aproveito para meter minha colher de pau nesse caldo. A cota “racial” não deve ser vista como a panacéia de todos os negros na sociedade brasileira. Os que têm propósitos sérios na condução dessa discussão não ensejam isso. Mas percebo essa falsa expectativa num número significativo daqueles que se beneficiarão com a política de cota “racial”. Isso se deu, a meu ver, por dois motivos.
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Primeiro, alguns acreditam que essa política será para sempre e assim se afirmaria como uma finalidade compensatória garantindo, através de uma medida forjada pela força da lei, aquilo que deveria ser o resultado da convivência entre todos os grupos étnicos, sociais, culturais. E que construiria um conceito sobre a sociedade brasileira que diria: é uma sociedade identificada pela ação competente de todos os que a constituem. E não apenas de uns poucos privilegiados. Creio, particularmente, que esse conceito não será formado se os critérios unificadores dos vários grupos sociais não forem resultantes da decisão de todos os grupos, mas de um grupo que agiu compensatoriamente em relação a outros.
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Ou seja, a sociedade tem de criar um modelo de convivência que permita a todos se mostrarem como capazes e de criarem a mentalidade de que todos são necessários e têm o direito à convivência e de lutar pelo usufruto da riqueza produzida no país, que é afinal, resultado do esforço de todos. As cotas, de forma definitiva, só vão alimentar os pré-conceitos. Mas para que os corpos se relacionem, se vejam, se sintam, na criação dessa convivência (viver com) as cotas “raciais” se fazem necessárias como elemento introdutório da percepção de que todos têm o direito de buscar, lutar por uma vida digna.
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A última frase do parágrafo acima já nos remete ao segundo motivo. Nós somos uma sociedade exclusivista estruturalmente. Nem todos os mulatos, nem todos os brancos, nem todos os negros usufruirão de todos os privilégios. Somos uma sociedade de uns poucos privilegiados. E as estruturas econômicas, políticas, sociais garantem legalmente isto. Então a euforia de que as cotas “raciais” tirarão todos os negros da condição de excluídos não é sustentada pelos indicadores sociais decorrentes dos condicionantes e determinantes estruturais da sociedade.
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Mas a política de cotas “raciais” é necessária para promover a interação e falsear os pré-conceitos possibilitando, através da convivência, a construção do conceito correto da sociedade e, então, uma reorganização que possibilite a todos os grupos sociais terem representação em todos os “espaços sociais”.
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Os pré-conceitos são construídos, principalmente, a partir da exclusão. Já assisti a depoimentos comprovadores desse enunciado. Ouvi pessoas dizendo, a partir do seu grupo social, que todos os membros seriam pessoas inteligentes, competentes e que por isso o seu grupo sempre obteve sucesso. E que a ausência de outras etnias não tinha a menor importância. Pelo contrário, era isso que garantia o sucesso do grupo. Tudo isto dito de maneira tosca pelo depoente mencionado.
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Desse modo, tais pré-conceitos são difundidos e aceitos como verdades concretas pelos outros membros e pelos novos membros ingressantes. É uma falsidade desastrosa, pois a ausência de outros grupos étnicos não garante o sucesso do grupo em questão. Só facilita a aceitação do pré-conceito, da exclusão.
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A política de cotas “raciais” trará para dentro dos grupos sociais os negros, e aí eles demonstrarão sua inteligência e competência levando-as à confrontação com o pré-conceito aludido acima e destruindo-o. Se mostrando, se relacionando, se tocando, o negro se fará visto e mostrará que tem direito de estar ali. E o sucesso do grupo, com o negro ali incluído, passará a ser descrito com um conceito (e não pré-conceito): a sociedade brasileira somos todos lutando igualmente pelas melhores oportunidades. Ou seja, podemos, sim, ter sucesso levando em consideração a inclusão de todos os grupos étnicos que compõem a nossa sociedade. Desde que passemos do pré-conceito ao conceito.
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Muita gente não acredita numa mudança de comportamentos, pré-conceitos, ações, precedida por uma revolução das palavras e seus significados. Estão presos inescapavelmente a pré-conceitos. RICHARD RORTY (1931-2007) nos ensinou que uma “revolução semântica” consegue reconstruir uma sociedade. Exemplo disso é a mudança de comportamentos em relação aos gays, que até a década dos anos 80 eram vistos como aberrações. Mas hoje, com a mudança de vocabulário que é utilizado para identificá-los, há uma convivência respeitosa e os gays estão ocupando mais espaços sociais, demonstrando inteligência e competência. Estão rompendo, aos poucos, os muros de segregação, exclusão. As palavras pré-conceituosas e carregadas de ódio foram substituídas por palavras novas que, ao final, têm modificado o comportamento das pessoas em relação a eles. Por isso, e para isso, precisamos nos descolar dos pré-conceitos.
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Um comentário:

Umbelina disse...

Boa ´déia usar a ela de Tarsila para ilustrar o seu texto. Gostei dos dois.
Um abraço