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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

CRÔNICA DO HUMOR POBRE.



Humberlinda, vivida pela comediante Katiuscia Canoro. (Foto da Internet).



Assisti, semana passada, ao “Zorra Total”, programa da Rede Globo aos sábados à noite, e ao sorrir das piadas parei para tentar levar a sério, apenas como exercício de divagação, a realidade apresentada por uma das personagens encenadas ali.

Trata-se de uma assistente social voluntária chamada Humberlinda, papel de Katiuscia Canoro. Ela trata os pobres que vão em busca de soluções para seus problemas de forma debochada e escrachada. “Vocês são gente… quase como que nem a gente”, “É verdade, é verdade sim. Humm”, “Estou aqui para servir todos os pobres. Eu amo os pobres”, são alguns de seus bordões.

Mas o que quero falar não é sobre o personagem e nem a discussão em torno do Conselho Federal de Assistentes Sociais com os modos da Humberlinda, não. Quero divagar em outra direção tentando ver a coisa como se pudesse ir além do humor.

É verdade que a ironia pode fazer a verdade aparecer. Nesse caso pode-se dizer que o humor presente na personagem é uma maneira de se alertar seriamente para o modo debochado como os pobres são tratados por outras classes sociais e com isso encaminhar uma discussão para a superação do preconceito de classe. Não excluo essa via, não.

Mas a minha divagação me levou a este ponto: Por que só os pobres são retratados invariavelmente como motivo de ridicularização, escárnio, apelação e sacarmos?

Os pobres são sempre os personagens a ser o alvo de outros personagens ou eles próprios os que se ridicularizam. As escolhas, os modelos estéticos, os gostos, as preferências são sempre motivo de riso.

Os alunos do 3º ano do IFPI Floriano perceberam recentemente, ao estudar o tema Ideologia, que os valores estabelecidos como referência são sempre as escolhas, os modelos estéticos, os gostos, as preferências da classe social (burguesia) que detém o monopólio dos meios de comunicação e, desse modo, estabelecê-los como modelo padrão a ser seguido e incorporado pelas demais classes sociais.

Então, tudo o que não é a referência cultural dela (burguesia) é ridicularizado, desrespeitado como algo inferior, de mau gosto. Portanto, motivo de riso.

Nisso tudo, os pobres por negarem os seus valores porque têm os valores da burguesia como referência do que é bom gosto, começam a ri de si mesmos.

Em parte isso é bom porque demonstra que quem sabe rir de si mesmo se permite fazer autocrítica. Mas será que os ricos não são ridículos também? Não possuem preferências ridículas? Estética ridícula? Gostos ridículos?

Cadê os personagens que ridicularizam os ricos (como classe social)? Você conhece algum?

É claro que não. Os ricos não se permitem servir de motivo de risos porque os seus valores é que devem ser o modelo para todos. E sendo os donos dos meios de comunicação, então não há a mesma ridicularização que há em relação aos pobres.

É nesse sentido que vem a crítica ácida dos articulistas dos meios de comunicação de massa destruindo qualquer pretensão dos trabalhadores de terem um canal de TV, de Rádio e Jornal que mostrem a si mesmos.

Outra demonstração de que os valores de uma classe se sobrepõem às demais é o caso indefensável da estética comportamental apontada na chegada dos médicos cubanos ao Brasil recentemente em Fortaleza.

Médicas e médicos locais fizeram um “corredor polonês” para receber seus colegas de profissão vindos de Cuba. Vaiaram-nos e disseram palavras duras. Uma jornalista do Rio Grande do Norte disse que as médicas cubanas “têm cara de empregada doméstica”. (Clique AQUI).

A burguesia estabeleceu uma estética comportamental para os médicos, por exemplo, e todo médico que não é identificado com tal estética é agredido de forma vil. Como se viu no caso acima.

Uso o conceito “estética comportamental” para definir a maneira de falar, vestir, andar, consumir, divertir, reagir e se comportar de acordo com o padrão que a classe criou para seus membros.

Então, quem por algum motivo não se enquadra nesse padrão, como é o caso das médicas cubanas, visto sua cultura social e econômica possuir outra estética, é ridicularizado de forma depreciativa como se um padrão fosse o correto e o outro o errado, portanto motivo de escárnio, riso e deboche.

Nietzsche disse, sobre o predomínio dos valores de uma classe sobre outra que tais “valores são sempre produto de interesses egoístas dos indivíduos. Os valores estão ligados às condições de existência de certos grupos, justificam as suas hierarquias e mecanismos de domínio, e mudam sempre que as condições de existência se alteram”.

Em decorrência, essa luta contra os valores estéticos dos trabalhadores é uma forma de autoafirmação da burguesia e, também, lógico, da pequena burguesia.

Assim, sem meios de impor seus valores e sua estética, e sem consciência de todo esse processo, muitos trabalhadores tentam imitar a estética comportamental dos ricos e dos membros da classe média fazendo uma mimetização de seus valores. Mas como o poder econômico dos trabalhadores não lhes permite consumir os mesmos bens estéticos, então eles buscam os similares.

É aí que aparece o ridículo. A imitação através do uso de elementos de cultura mal elaborados (os similares chineses, por exemplo) que tornam os pobres alvos de risos e escárnios. Note-se como são decorados os ambientes de vivências dos pobres nos programas humorísticos, são uma demonstração do gosto kitsch.

Será que vou viver o suficiente para assistir a programas humorísticos de TV pertencente aos trabalhadores cujos personagens ridicularizados, escarniados, depreciados serão os membros da burguesia?

Para finalizar compondo a premissa da sobreposição e aceitação de valores entre classes sociais, cito o sociólogo José Arthur Gianotti que disse que “existem muitas formas de moralidade, sendo que cada grupo social ou profissional tem sua identidade, delineada por normas consentidas. A infração destas normas gera censura ou mesmo a exclusão daquele grupo determinado.”


É, também, por isso que ricos adoram rir de pobres.  


P. S.: O meu colega, professor Luiz Bonfim, sugeriu o nome desse texto e indicou que eu deveria abordar também, a partir dessa ótica, o papel do homossexual nesses mesmos humorísticos. Então, fica para um próximo texto.


3 comentários:

Anônimo disse...

Realmente não só o Brasil, mas como toda a sociedade mundial acaba vivendo essa realidade, nota-se que que na vida em comunidade quem determina as "características padrões" são detentores dos meios de comunicação e das grandes redes modistas(que, entenda como quiser, aparenta mais que coincidência), sendo assim a elite acaba forçando/oprimindo a classe mais pobre a seguir a sua linha de pensamento, gosto e modo de vida. Cabe a nós mudar isso, difundir essa idéia, fazer com que além de tudo haja compreensão para que a mudança ocorra.

ROBERT disse...

ESSE HUMOR DO BRASIL, E DE BOA PARTE DOS LUGARES DO MUNDO SE RESUME SIMPLESMENTE A ISSO...

Cássio Sousa disse...

Creio que seja inevitável esse tipo de humor, pois os burgueses, sempre vão ter acesso a melhores bens e status social e, sempre serão "invejados" pelas classes mais baixas, logo, essa inveja formará uma barreira que impede a valorização das ideologias das classes mais baixas.

Cássio, 3º ano de edificações (farei prova disso amanhã - quarta).